Em seu famoso trabalho "O Que É História?" o historiador E. H. Carr declarou que não há uma história objetiva; não há uma narração de eventos que simplesmente apresente os fatos sem a descrição ou comentário pela perspectiva e base do autor. Inevitavelmente, então, a história é escrita pelos vencedores, o que a mostra como regida por uma, às vezes injusta, meritocracia. A simples apresentação dos eventos se torna subconscientemente moldada de acordo com os caminhos traçados pelos grandes personagens envolvidos neles. E a história da Fórmula Um não é diferente.O fatídico Grande Prêmio de San Marino de 1994 é lembrado no folcore da F1 como "A corrida em que Senna morreu". Senna, o herói de toda uma geração; o vilão para muitos dessa mesma geração; o bom samaritano; o impiedoso agressor; o gênio imbatível; o maior de todos os tempos... Porém, alguns ainda se lembram, aquele foi também o fim de semana no qual o jovem Rubens Barrichello teve sorte de escapar à própria morte, ao voar por sobre a zebra; no qual um acidente logo na largada envolvendo Pedro Lamy e J. J. Letho resultou no ferimento de 9 espectadores; e no qual, a dez voltas do final, a roda traseira direita da Minardi de Michele Alboreto se soltou do eixo quando deixava os boxes, acertando dois mecânicos da Ferrari e dois mecânicos da Lotus que foram levados para o hospital.
Alguns se lembram também do acidente fatal ocorrido no sábado anterior à morte de Senna, porém poucos são os que se lembram do nome do piloto. Aquele 30 de Abril de 1994 foi o dia em que a F1 perdeu Roland Ratzenberger. Um austríaco que não teve chance alguma quando seu Simtek colidiu de frente com um muro de concreto a uma velocidade perto dos 300 Km/h, na curva Villeneuve, a poucos metros à frente da Tamburello. Esse acidente não foi apenas uma cruel mudança do destino do versátil novato, que ainda estava se encontrando na F1, mas também uma completa tragédia para sua memória que o melhor piloto da sua era tenha falecido na tarde do dia seguinte.
Foi dessa forma, sentado com o Douglas num banquinho qualquer, tomando café, que nos recordamos do "outro pilto morto de Ímola". Roland Ratzenberger nasceu em Salzburg em 4 de Julho de 1960 e começou a competir nas corridas da Fórmula Ford Alemã em 1983. Após vencer em 1985 os campeonatos Austríaco e Centro Eurpopeu de Fórmula Ford, e em 1986 o Festival de Fórmula Ford, Ratzenberger assinou, em 1987, contrato com a famosa West Surrey Racing Team para disputar a Fórmula 3 Inglesa. Curiosamente, esse foi o mesmo time que levou Senna ao título em 1983.
Embora tenha conseguido um podium em Spa, Ratzenberger terminou em 12º na colocação geral da F3 Inglesa e 5º na colocação geral da F3 Euroseries. Em 1987 terminou novamente em 12º na F3 Inglesa, dessa vez correndo pela Madgwick Motorsport; todavia, foi nessa temporada que ele começou a demonstrar uma versatilidade que poucos pilotos tinham. No mesmo ano, diputou o Campeonato de Carros de Turismo pela BMW M3 e, mesmo com toda a flexibilidade exigida na transição constante entre monopostos e carros de turismo, terminou o ano em 10º, contando com 2 segundos lugares, o que, dadas as circunstâncias, foi uma marca notável.
Porém a ascenção de Ratzenberger estava chegando ao limite e se estagnando. Com a debandada do WTCC após 1987, e sem dinheiro o suficiente para conseguir acesso às categorias superiores, conseguiu novamente disputar um campeonato apenas em 1989, terminando em 3º lugar na classificação geral da F3000 Inglesa, tendo conseguido apenas uma vitória, no circuito de Donington Park.
Nos anos seguintes ele tentou novamente algo diferente, indo correr com carros esportivos para o Porsche Team, com um honroso 4º lugar em Spa, mas não conseguindo terminar a sua primeira corrida nas 24 Horas de Le Mans. No começo dos anos 90, foi convidado pela BMW a participar do JTCC (Japanese Touring Car Championship) e pela Toyota para participar do Campeonato Japonês de Protótipos Esportivos. Durante suas três temporadas no Japão, correu com pilotos como Pierre-Henri Raphanel, Naoki Nagasaka, Eje Elgh e um certo Eddie Irvine.
Disputou novamente as edições de 1990 até 1993 das 24 Horas de Le Mans, conquistando um belíssimo 5º lugar em 1993. voltou novamente a dirigir um monoposto nas temporadas de 1992 e 1993 da F3000 Japonesa na qual seus maiores feitos foram duas consecutivas pole positions e uma vitória dominante em Suzuka para provar que ele tinha o que era necessário para correr na categoria.
Foi no Japão também que começou a se despontar como um piloto querido por todos os membros de várias equipes, tanto por sua original ingenuidade quanto pelo seu imenso senso de camaradagem. Característias essas que já o acompanhavam desde os anos 80 na Inglaterra, quando fez amizade com pessoas como Damon Hill, Perry McCarthy. Todavia, Raztenberger não esteve "sozinho" em suas temporadas no Japão; ele foi apenas um dos notáveis gaijins, incluindo Eddie Irvine, Heinz-Harald Frentzen, Jacques Villeneuve e Mika Salo, que não só permaneceram juntos, como também desenvolveram uma amizade genuína que os acompanharia pelos anos seguintes.
Embora não tivesse a mesma desenvoltura que Irvine e Villeneuve, Ratzenberger conseguiu cativar a muitos por ser simplesmente como qualquer pessoa na rua, um cara comum com um extraordinário senso de humor, uma apreciação inteligente se suas próprias habildades e limitações e, acima de tudo, um entusiasmo por seu esporte que poucos conseguiam igualar. Exatamente como os 'pilotos de antigamente' eram e não como a maioria dos pilotos atualmente se deixaram moldar.
Lendo matérias da época de seu acidente percebe-se como as pessoas ligadas a ele diziam o quão empolgado ele havia ficado apenas por ter conseguido chegar à Fórmula 1 no começo de 1994. Tristemente, não se vê mais pilotos na F1 nos dias de hoje que, como Raztenberger, merecem estar lá, mas estão apenas contentes por estar lá e terem conquistado seu lugar no topo do esporte automobilístico. Não é a falta de ambição por estar contente em simplesmente participar da F1, mas sim a marca do legado de uma vida. Hoje em dia, os grids são compostos por pilotos com grande patrocínio ou por jovens ingênuos e extremamente auto-confiantes, consumidos por uma mentalidade "vencer-ou-vencer".
Não quero dizer com isso que Roland Ratzenberger não era destemido ou determinado. Muito pelo contrário, ele era tudo isso, porém era uma determinação regida por um senso de perspectiva. Para mim, seus últimos momentos de vida testemunham essa determinação.
Como a história sempre vai ser lembrada, Roland escapou da pista na chicane Acque Minerali na volta anterior ao seu acidente. Após checar o estado de seu Simtek e entender que era seguro continuar e com tempo para mais uma tentativa, ele seguiu para sua última volta. A caminho da curva Villeneuve, a carga aerodinâmica ia crescendo cada vez mais sobre sua asa dianteira danificada na volta anterior até o momento em que a asa quebrou...
Roland Ratzenberger foi declarado morto ao chegar no hospital Maggiore de Bolgna. Sua morte causou medo e estarrecimento por todo o paddock que havia se esquecido que a morte espreitava de perto os finais de semana dos Grandes Prêmios. Os pacotes de medidas de segurança introduzidos desde então, das melhorias nos cockpits até o estreitamento das pistas, dos testes de acidentes mais rígidos até a implementação do HANS, são quase sempre atibuídos à morte de Senna, ou ao acidente de Wendlinger ou Hakkinen. Para mim, essas mudanças começaram a existir com a morte de Ratzenberger, evento ofuscado pelo acidente do melhor piloto da sua era na tarde do dia seguinte.
Pode parecer meio clichê, mas a verdade é que Roland Ratzenberger morreu na pista, fazendo o que ele realmente amava (assim como Senna, mas essa é outra história). Embora um piloto profissional, ele foi com certeza um dos últimos pilotos de Grandes Prêmios a manter seu espírito amador. Que ele era versátil e habilidoso o suficiente para justificar seu lugar na F1 é uma coisa, que ele levava consigo uma combinação de dignidade, determinação, entusiasmo, senso de humor e camaradagem é outra completamente diferente.
Sua morte foi uma grande perda, não só para a comunidade da Fórmula Um ou para o mundo das corridas automobilísticas, mas também para todos aqueles que vivem a vida para aproveitar todas as oportunidades...
Descanse em paz Roland.


